segunda-feira, 13 de novembro de 2017

A MORTE NÃO É O FIM

Percebi agora, que desde que ficaste doente, nada publiquei aqui no Blog...
Acabaste por partir...voltei aqui para escrever...
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Paizinho,
Ainda me custa a acreditar que o teu corpo já não está entre nós.
Dizem os ‘entendidos’ que é mesmo assim…a negação chega em primeiro lugar e sobrepõe-se à realidade que é vermos partir quem amamos.
Confesso, que não lhe chamo negação, mas sim apego.
O apego que me faz querer ouvir o telefone tocar, o apego que me faz querer almoçar ou jantar contigo, o apego que me empurra para a (in)verdade que é, acreditar que pode existir vida sem morte e morte sem vida.
Contrariando a ordem natural de todas as coisas, ensinam-nos que a morte é algo trágico.
Em crianças privam-nos de ir a velórios (ainda que sejam dos nossos avós), dizem-nos que o preto é a cor da tristeza, e até que há que vestir muito quando alguém próximo de nós morre, quando, meu pai, a morte nada mais é, que a passagem para uma nova vida, a abertura de  um novo portal, uma imensa e profunda purificação dos nossos egos cansados de tanto controlar.

Viveste uma vida repleta de vida. Tristezas, alegrias, frustrações, ilusões, momentos de derrota e de glória. Escreveste um livro, plantaste uma árvore, foste pai de três filhos e de uma cadela que honraste como ninguém, e que sei sentirá muito a tua ausência física. 

Muitos desses momentos, tive a honra de teres partilhado comigo.
Foi neles que te conheci recantos muito sensíveis e humanos, incrivelmente inspiradores, que me empurraram desde criança, para uma reflexão continua sobre a existência, o sentido da vida, e me ensinaram a não me contentar com o que é “normal”…
Cedo percebi, que não sofrias da pior doença do século – a “normose”, ou seja ser “nomalzinho”, representando a vida por ordem cronológica como ditam as regras.
Tu, realmente não ias para onde todos iam, não fazias o que todos faziam, não dizias o que todos diziam, só porque sim… eras tu próprio e permitiste-me, a mim e aos meus irmãos sermos nós próprios também!
Deixaste-me assim o maior legado que se pode deixar a um filho – a certeza de que só a vida nos ensina o que precisamos de aprender.
Talvez por isso, não tiveste a pretensão, de me quereres ensinar, mas sim a coragem de permitires que fosse eu a aprender! E, isto meu pai, fez toda a diferença no meu caminho.
Soubeste apertar-me o menos possível, mimando-me o mais que pudeste.
Amo-te, Paizinho.
Ontem, foi um dia triste.
O apego quis falar mais alto.
Escutei-o sem o mandar calar.
Despedi-me do teu corpo, mas não de TI.
A tua alma seguirá o seu caminho na luz e juntos continuaremos a seguir o nosso, agora de uma outra forma.
A morte não é o fim.

Porque quem vive em nós, não tem como morrer!   

terça-feira, 5 de setembro de 2017

ENTRE DOIS SENTIRES

A vida é dinâmica, não há volta a dar.
Há precisamente 17 meses, o meu neto Duarte, deixava a Terra, regressando em paz a casa do Pai.
Com a dor da partida, há uma esperança que se esvai como pó no vento, uma impotência que se instala, uma sensação de vazio, não de um qualquer vazio, mas daquele exacto vazio, o tal da presença física, do toque, do cheiro de quem mais do que qualquer um de nós, sabia que a inocência não se aprende e que a aceitação resultante da mesma é a mais bela obra de arte que um ser humano pode criar.  
As aprendizagens foram e ainda são, mais que muitas.
Ficou no entanto, um legado capaz de tudo aconchegar – o Amor que sendo eterno não tem como morrer, como acabar.
Tal como na vida, em que nada realmente acaba e tudo, a tudo se sucede.
O dia à noite, a noite ao dia, os acontecimentos a outros acontecimentos, a chuva ao sol, a vida à morte e a morte à vida.  

Quem sabe por isto, a vida nas suas dinâmicas mostra outras possibilidades, repõe novas esperanças, retoma outros caminhos, concebe novas formas, para que percebamos que nada que não seja AMOR é estático ou permanente.       

Quem sabe por isto também, hoje, 17 meses depois de ver o meu neto partir, pude ver a minha neta Constança, toda contente no seu primeiro dia de infantário e a minha filha a transbordar de alívio por a sentir tão integrada e feliz.
Marcas de felicidade que ficam tatuadas em nós, relembrando que a dualidade é uma condição humana e que apesar de cada marca ocupar o seu pedacinho de pele, uma marca feliz tem tantas vezes o poder de nos amaciar, aconchegar os olhos, e nos fazer sorrir, ainda que seja por breves segundos, que por serem tão genuínos são horas no nosso coração.           
Hoje o meu está assim.
Entre duas marcas. Entre dois sentires.
Num profundo silêncio, onde a minha alma relembra, que a vida que leva é a mesma que traz!      

quarta-feira, 5 de julho de 2017

A ALMA SABE-NOS ETERNOS

Meu amado, 
Hoje quero falar-te de tempo.
Dia 4 de Julho o calendário dos homens marcou 15 meses desde que o teu corpo deixou a terra. Em conversa com a mamã, recordámo-nos que foi igualmente aos 15 meses de vida que partiste.
Curioso como o tempo deambula os nossos sentidos e tece em nós a profunda certeza de que só existe na medida em que o quantificamos e lhe atribuímos valor e significado.
Sabes querido, quanto mais caminho, menos sei sobre conceitos, ideias, ideais, certezas e…tempo.  
A intemporalidade do que vivo está cada vez mais presente em mim e aceitar a impermanência de tudo, apesar de desafiante, parece-me mesmo ser o grande segredo para  quem quer atravessar este caminho em paz.
Usando palavras de dor, poderia profanar o que em mim sei sagrado e dizer-te que foram 15 meses contigo e 15 meses sem ti.
Mas, isso não é a verdade.
A alma sabe-nos eternos no caminho um do outro e por isso a leitura do “tempo-dos-homens”, esvai-se como pó deitado ao vento, restando a profunda certeza de que o AMOR se eleva sempre perante qualquer dor ou apego, e que se podem perder ilusões, mas nunca, nunca se “perde-ninguém”.
Por isso, meu amado, hoje sei, que não só não te perdi, como através de ti ampliei a certeza de que quem amamos não parte nunca.
Pois, apesar de na terra, nada “durar-para-sempre”, no AMOR não há duração possível, pois TUDO é sabiamente ETERNO!         
Abraço-Te na Luz maior,
Vovó Kikas

quarta-feira, 21 de junho de 2017

DOIS LADOS DA VIDA


Sempre que viramos as costas a algo, estamos de frente para algo também.
Na vida tudo tem dois lados.
Duas escolhas. Tudo.
Excepto o verdadeiro Amor!  

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

PAUSA PARA UM NOVO LIVRO

Vou fazer uma pausa durante o mês de Janeiro.
Não para um Kit Kat, como diz o anúncio, mas sim para poder terminar aquele que será o meu próximo livro.
Como disse um dia o José Eduardo Agualusa, os livros são entidades caprichosas, confesso que este tem sido prova disso.
Tem uma certa rebeldia que se lhe aconchega às histórias e talvez por isso, passamos muito tempo a negociar os dois, e mesmo depois de ceder aos seus caprichos, ainda me surpreende e troca as voltas sem a menor preocupação.
Não faço dele aquilo que quero, mesmo quando penso que está a meu favor.
Durante meses, conquistámos muitas páginas de vida em comum.
Envolvemo-nos, enovelamo-nos, transcendemo-nos, tudo porque muito em breve ele nascerá para o mundo e com ele uma parte de mim (re)nascerá também!   
E, como a gestação é feita no escuro, estarei este mês em “modo-voo”, a escarramanhar o resto da história, ansiosíssima por lhe saber o fim (arre, que mania esta de querermos sempre saber o fim), que acredito me vai surpreender!
Escrever conduz-me até mim e é lá que gosto de estar.  

Até já!!!   

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

ONDE É QUE SE ENFIARAM OS AMIGOS?

No sábado passado tive o privilégio de participar num encontro que teve como propósito reunir mães que perderam os seus filhos, promovendo a partilha de experiências para que, através da identificação o processo de luto seja dentro do possível, menos solitário e mais acolhedor.
Acompanhei a minha filha, participando como avó, e pude sentir de mais perto a dor da perda, o vazio, as incertezas, os medos, mas também alguma esperança de que a vida continua, mesmo quando uma parte de nós nos é retirada sem que nada possamos fazer para contrariar.    

Neste encontro, pude ainda saber que, uma pergunta que após a partida do Duarte, tantas vezes fiz, curiosamente (ou não) todas estas mães a fizeram também - onde se enfiaram os amigos que parece se evaporaram todos depois do funeral?

Relembrando a frase de Confúcio que diz, que para conhecermos os amigos é necessário passar pelo sucesso e pela desgraça, pois no sucesso verificamos a quantidade e na desgraça a qualidade, hoje posso afirmar que esta frase me trespassou a pele e sei-a de cor porque a tenho vivido. 
Apesar de continuar sem entender a razão pela qual nestas alturas os “amigos” se afastam, pude finalmente sentir que esta não era uma questão só minha, mas sim uma questão relacionada com o próprio processo do luto e com a “incapacidade” que alguns ditos “amigos” parecem revelar perante acontecimentos duros, pouco floridos e nada fáceis de lidar.   

Ao que parece, uma parte de nós precisa de acreditar, que estes “amigos” se afastaram sim, mas com “boa-intenção”, ou melhor dizendo, sem que a mesma seja “má”, o que são coisas bem diferentes.
Seja lá o que for, que só cabe a cada um saber de si, o que me parece é que neste caso a acção se sobrepõe e muito á intenção.       

Como se apoiar o outro, por perder alguém, especialmente uma criança com doença oncológica, trouxesse agregada a si, uma tónica de contágio qualquer, capaz de relembrar a cada inspiração que a vida é mesmo fora do nosso controle, impermanente e cíclica, no fundo como toda e qualquer amizade cujo pilar não esteja assente na verdade.      

Confesso que após todas as partilhas foi ainda mais claro para mim, que um amigo não tem de ser quem muito fala, mas sim, quem sem falar se consegue fazer ouvir. Um amigo não é o que desaparece perante uma situação difícil, por não saber lidar com a mesma, mas sim o que sabe sair de si mesmo e das suas incapacidades para chegar ao outro a quem afinal chama…amigo.

Ninguém cura a solidão de ninguém, é um facto.
É verdade que, quando perdemos quem amamos, uma gélida solidão instala-se dentro de nós, um transtorno constante inquieta-nos, roí-nos, faz-nos doer e nada nem ninguém parece ter a fórmula de o fazer desaparecer.  
É verdade também que há uma impotência gigante que nos traz sentimentos de raiva, de revolta e até de zanga profunda com a vida. Mas, a verdade das verdades é que o apoio dos que nos rodeiam é balsâmico para atravessarmos a dor com algum aconchego.

Que bom que é saber que há coisas que os amigos sabem.
Sabem por exemplo, que não precisamos de dizer muito para que nos possamos entender, pois ambos já experienciámos que uma das mais duras solidões é mesmo a de não se sentir entendido. 
Muitas vezes, basta sentirmos que o outro está ali, que podemos falar se preciso for, ou nada dizer se isso for o que no momento nos é mais confortável.
Um amigo sabe que quem está do lado de dentro, a viver um processo desta natureza, talvez não dê agora o primeiro passo para tomar um café ou para jantar, como outrora o fazia.
Um amigo sabe, ou deveria saber (desculpem lá a minha presunção), que o primeiro passo agora lhe pertence, pelo menos até tudo voltar ao equilíbrio que a reciprocidade anterior sempre permitiu.
A amizade não se pedincha, não se compra, nem se vende.                        
Ou é, ou não é.
Se é, revela-se nas acções.
Se não é, é nas acções que se revela também! ~