terça-feira, 15 de janeiro de 2019

A ILUSÃO MORDE-NOS A TODOS

Há portas que não se abrem só porque existem,
e algemas que não se tiram só porque nos apertam os pulsos.
Há mágoas, tristezas e desencantos que não se arrancam,
só porque seria mais fácil para nós.
Há vida que não se conquista sem mergulhar fundo,
e morte que não se evita só porque dá jeito.
Há mais, muito mais do que aquilo que se vê,
e menos, muito menos do que o que se pensa saber.
Há cortes na pele que não saram com o tempo,
e tempo que nos mostra outros cortes também.  
Há ternura, certeza e momentos elevados,
e há tristezas capazes de nos dissociar da vida em si.
Há a verdade do que somos e a mentira do que gostaríamos de ser.
Há Amor e há medo.
Há tudo. Não há nada.
A ilusão morde-nos a todos.    

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

HÁ DIAS QUE NOS PARECEM NOITES


Os últimos dois anos da minha vida têm sido particularmente difíceis.  
A vida tem-me testado nas minhas fragilidades, nas minhas verdades internas, no cumprimento (ou não) do meu desígnio na Terra, na forma como recorro (ou não) à alma em momentos onde a fé se esvai, e onde as feridas ficam escancaradas e parecem doer mais do que nunca.
 E…realmente há dias que me parecem noites de tão escuros que são!

Há alturas em que consigo olhá-los como provações, que me conduzem naturalmente a aprendizagens profundas, mas alturas há também, que a falta de sentido se enrola a mim, e me arrasta com a mesma rapidez com que o mar, sem pedir licença, arrasta a fina areia da praia.
O cansaço cansa-me e quando me sinto cansada, pareço desaprender o que posso fazer para descansar.
As tarefas mundanas consomem-me “dados”, que sinto em mim se estão a esgotar. Um esgotamento existencial, onde constato que ao longo destes últimos anos, feridas submersas, quiserem voltar à superfície, quem sabe na esperança de serem acolhidas, honradas, e…finalmente curadas.  
Subtilmente rebeldes e capazes de me trocarem as voltas, agudizaram em mim mais uma vez a certeza de que “nem tudo o que reluz é ouro”, mesmo quando quero muito acreditar, que assim é!
Percebi, que desde o dia, em que celebrei 50 anos, a vida desatou a apressar-me processos e mais processos, num turbilhão de impotências, de perdas, de ilusões, de desilusões, de lembranças vivas de que a amnésia existencial é algo ao qual nenhum de nós está impune, quer nos dê jeito ou não.
Na verdade, não me têm dado grande jeito, pois é desajeitada que muitos dias me levanto, e cumpro tarefas por ordem cronológica, na esperança de com elas me cumprir também! 
Mas como a vida é sábia, foi desajeitada também, que no meio da tempestade, reencontrei, o meu melhor amigo.
Tem sido ele, que com paciência, tem escutado algumas das minhas lágrimas e, que com ternura me tem falado ao ouvido.

Chamo-lhe silêncio.
Sacerdote interno, gosta que eu lhe chame o “bálsamo da minha lucidez”. 
Nas nossas longas conversas, tem-me relembrado, que não preciso de compreender o incompreensível, nem rir, quando me apetece chorar. Que não tenho que encaixar coisas que para mim, não são encaixáveis, posso apenas aprender a esperar o tempo exacto de as aceitar, visto não estar ao meu alcance modificá-las. Tem-me ainda relembrado, que o coração, é um órgão capaz de se fragilizar, sempre que a mente precisa de lhe impor que se retire, de onde sabe já não ser bem-vindo.    
É verdade, qualquer travessia requer rendição e paciência.
E, sim é verdade, há dias que parecem noites de tão escuros que são.

terça-feira, 8 de janeiro de 2019

O PODER DA MAGIA DAS PEQUENAS COISAS


Minha amada Constança, hoje vóvó viveu uma das melhores tardes da sua vida. Decidi falar-te dela, pois sei que assim perceberás porquê.

Sabes, o tempo dos homens - aquele que nos atravessa a pele, fazendo-nos acreditar que a vida é só o que vemos e nada mais - esse tempo, dizia eu, vai  retirando de nós a ignorância de darmos importância aquilo que não a tem, e ao mesmo tempo vai nos abençoando com a verdade do que é realmente essencial.
 Ganhamos rugas e perdemos ilusões.
O corpo envelhece, para a alma poder engrandecer.
Curioso, não é?
Esta nossa alma que precisa engrandecer, começa finalmente a ocupar lugar dentro de nós e com ela de mansinho acontece aquilo que a vóvó gosta de chamar, o poder da magia das pequenas coisas.

Como irás perceber ao longo do teu caminho, este poder mágico surge sem aviso prévio, como aliás acontecem, quase sempre as coisas mais marcantes da nossa vida.

Hoje, ambas fomos por ele bafejadas.

Fui buscar-te à escola bem cedinho, estavas tu ainda a lanchar.
Assim que me viste entrar, pude saborear a tua alegria e maravilhar-me contigo a devorares o iogurte, que há muito sabes comer sozinha.
Levantaste-te rapidamente, entregando-me a colher, como se de uma medalha se tratasse, para que fosse eu a dar-te o resto.
A simplicidade misturou-se com o prazer e magia fazia já parte de nós.
Caminhámos até ao bengaleiro e ao vestir-te o casaco o nosso olhar tocou-se com ternura, exalando um brilho profundo, que só a alma sabe decifrar.
Naquele exacto momento, soubemos mais uma vez, que existe um mundo só nosso e que os (re)encontros na terra, são obra prima sagrada, que a mente jamais decifrará.

De mãos dadas, lá fomos felizes para o carro.
Ao sair do estacionamento, olhei-te pelo retrovisor e senti-me invadida pela  tua pureza. Inspirei e de mim saiu a voz do amor terno de uma avó.

- Filha, queres ir ver os patinhos?

Ainda a frase não tinha terminado, já estavas a entoar um gritante “ siiiiiiiiiiiimmmmm”...
Vóvó, que é uma mulher de olhos molhados, não resistiu a umas dezenas de pestanadelas, na esperança de não se afundar de repente na emoção da simplicidade daquele mágico momento.
O jardim estava mais bonito que nunca. Os cheiros do Inverno, misturados com os tons pastel das folhas no chão, ampliaram a magia e tudo era absolutamente perfeito naquele momento.
Os patinhos pareciam estar à nossa espera e a forma como nos receberam foi tão, mas tão maravilhosa que as palavras jamais terão poder de interpretar ou definir.
Sabes, Constança o verdadeiro poder das coisas não pode ser definido ou interpretado, apenas vivido, experienciado.
Não reside na nossa imaginação, mas sim na coragem que temos de fazer acontecer magia. Magia esta que contém poder capaz de nos ampliar, nos tornar mais unos, mais sábios, mais felizes.
O poder da magia das pequenas coisas.
No fundo, minha amada, o magistral poder do AMOR.

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

A MINHA VERDADE, A TUA VERDADE E...A VERDADE EM-SI.


Costumo dizer muitas vezes que, em qualquer relação, existem sempre 3 verdades.
A verdade de um, a verdade do outro e depois…a verdade em si.
A verdade de cada um, provem do seu sistema de crenças, valores e nível vibratório de consciência. Está sujeita às mais diversas interpretações e é, muitas vezes alimentada pela projecção psicológica, mecanismo de defesa, onde, segundo Freud tudo aquilo que não aceitamos em nós mesmos, reprimimos, projectando depois no outro.
Este processo de projecção, parece reduzir-nos a ansiedade, pois retira responsabilidade aos nossos comportamentos, passando assim, a ser o outro o “culpado” de tudo aquilo que nos acontece.

Tornarmos conscientes os nossos recantos escondidos, conhecidos como sombra pode ajudar-nos a alcançar uma maior nitidez, logo a minimizar as nossas inúmeras projecções e culpabilizações externas.

Até isto acontecer, o acesso a nós mesmos está vedado, pois regra geral, agimos de forma contrária àquilo que afirmamos querer. Dificilmente assumimos os nossos actos, replicando como papagaios, frases sempre iguais, que se tornam verdadeiros zumbidos - fiz isto, porque fizeste aquilo, disse isto, porque disseste aquilo, fiz assim, porque tu também fazes assim, enfim uma canseira sem fim à vista.

Em resumo, cada um tem a sua verdade e atribui-lhe facilmente um lugar a que esta não tem direito– o lugar da “verdade-em-si”.

A verdade em si, não pertence a nada, nem a ninguém.
Baseia-se apenas, nos “pragmáticos” factos da vida.
Ora vejamos um exemplo.
Gosto muito das plantas que tenho em casa, esta é a minha verdade.
No entanto não as reguei e elas morreram. Este é o facto.
Então, qual é a verdade realmente, ou seja, qual é a verdade-em-si?
Simples. Não as tendo regado, elas morreram.

Se não assumir qualquer responsabilidade sobre o meu acto, vou dizer – ah, mas pensava que aguentavam mais tempo…– ou – ah, nessa semana andei muito ocupada…- ou até - ah, faltou a água – tudo isto são meras desculpas, meras interpretações e a aquela que era a minha verdade ( gosto muito das plantas que tenho em casa) perdeu toda a expressão, pois o importante não foi gostar muito delas, mas sim não ter assumido o meu compromisso - regá-las para que crescessem de forma saudável. Já se tivesse assumido a minha responsabilidade e olhado com honestidade para dentro de mim, tornaria o meu comportamento mais consciente, levando-me a perceber facilmente que se quero ter plantas vivas e cheias de vitalidade em casa, tenho de assumir com elas um compromisso – regá-las, sem arranjar constantes desculpas para não o fazer!   

A verdade-em-si, não vive de projecções, desculpas ou interpretações, mas sim de factos.
São eles que determinam a nossa vida, e trazem até nós o resultado das nossas acções.

Como dizia o Padre Feytor Pinto, “ já agora, talvez valha a pena parar e, pensar nisto” :-)       
    

domingo, 14 de outubro de 2018

O TEMPO CURA AS FERIDAS, OU FERE AS CURAS?


Dizem alguns que o tempo tudo cura.
Na verdade, o tempo por si só não cura nada, sendo esta tão somente, mais uma das nossas grandes ilusões - atribuirmos responsabilidade ao tempo, quando afinal, o tempo somos nós.

A meu ver, o tempo não só, não cura as feridas, como pode até, ferir as “curas”.
Feridas ilusoriamente saradas, que a nossa miopia existencial, ajudou a alienar de qualquer consciência ou empenho, fazendo-nos assim acreditar que, com o passar dos anos, se evaporariam como um mero truque de magia nas mãos dum mágico experiente.

Não, o tempo não cura nada, apenas nos sugere espaço e travessia para irmos processando, tudo aquilo que primeiramente nos queimou até aos ossos, mas que depois de perder o fogo, passou apenas a arder-nos na pele.

A verdade é que o ardor na pele é suportável, mas só até ao dia que nesse mesmo ardor a vida colocar álcool etílico bem forte.
Aí sim, percebemos que o fogo que um dia nos queimou, deixou de queimar, mas…que a ferida, essa afinal nos continua a doer.
Houve tempo que passou, mas não houve processo que aconteceu.

É o processo que decidimos, ou não fazer, que nos cura, ou seja, somos nós mesmos, sempre que em conexão com a nossa alma, abraçamos a possibilidade de atravessar infinitos desertos, mantendo intrínseca a esperança de que, um dia, um grandioso oásis iremos encontrar.

Há travessias duras, é um facto.
Travessias que nos impõem solidão, isolamento e um profundo silenciar do ensurdecedor ruído que as feridas provocam dentro de nós.
A noite escura da Alma, é um período sem tempo, sem hora para terminar, sem sentido ou direcção aparente.
Alquimistas que somos, podemos resignificá-la, tornarmo-nos seus aliados, aceitando-a escura, como naturalmente é.
Encontrar nela, uma espécie de regresso à segurança e vínculo do útero materno, onde a escuridão é apenas o anunciar de um processo, que dará origem a uma nova vida, a uma nova luz, a um novo respirar.
Pois ao chegar o tempo exacto, ou seja, assim que todo o processo estiver concluído, o nascimento acontecerá!

Não, não é o tempo que cura nada, mas sim a VIDA!