terça-feira, 15 de abril de 2014

DIZER TUDO COMÓS MALUCOS


Confesso que sinto sempre um arrepio de repulsa quando ouço alguém dizer “ Dizes tudo comós malucos”.
Se debulharmos esta hilariante expressão, rapidamente concluímos que “ dizermos tudo” é associado a uma espécie de demência ou loucura da qual todos queremos manter distância.

Não deixa de ser curioso ao mesmo tempo olhar para a raiz de grande parte das doenças psicossomáticas a que a humanidade se sujeita exactamente porque…deixa de dizer… tudo aquilo que sente.

A vida é dinâmica. 

Tal como água do rio precisa de circular para não estagnar e cumprir o seu percurso, a Terra precisa de renovação para se manter fértil e fertilizar, nós precisamos de verbalizar aquilo que sentimos para não estagnarmos, nos renovarmos e nos mantermos igualmente férteis, fertilizando também aqueles que nos rodeiam.

Palavras fechadas e não proferidas apodrecem dentro de nós. Envenenam-nos. Corroem lentamente o nosso corpo e o nosso espirito. Engordam-nos ou emagrecem-nos. Instalam-se nas nossas células, tirando-lhes vida, após anos de pedidos de socorro ignorados. Subjugam-nos ao mais piedoso dos dramas – o drama de não expressarmos genuinamente quem somos e a uma das mais duras penas – a prisão perpétua que é viver formatado na cápsula colectiva, repetindo por ordem cronológica o seu manual de lógicas instruções, antítese do movimento natural da Vida que divinamente em nós habita.

Confesso que com esta expressão sempre reconheci o “maluco-que-há-em-mim” como sendo um dos meus mais saudáveis recantos.   

Afinal que demência maior pode existir que aquela que por medo de se exprimir se entope do que não disse mas gostava de ter dito?

Expressar-se livremente é um caminho de pacificação, de consciência e grande lucidez, precisamente o inverso daquilo que apregoamos sempre que repetimos a dita expressão, fruto da ignorância colectiva duma humanidade reprimida e pouco consciente.    
É realmente importante estarmos atentos ao que proferimos da boca para fora, não para evitar dizer o que sentimos, mas sim para evitar repetir frases cujo sentido não nos damos ao trabalho de entender, aprofundar e validar.

Que tal começar por esta? 

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