quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

PERFEIÇÃO & AUTENTICIDADE

Sê uma boa menina - ouvia eu, sempre que saía de casa para o colégio.
No percurso que fazia de carrinha ia observando tudo ao meu redor e perguntando baixinho a mim mesma – será que sou mesmo uma boa menina?
Um dia enquanto a carrinha não chegava, perguntei á minha avó “como era afinal ser boa menina”.
Uma lista de qualidades em forma de palavras docemente verbalizadas pareciam encaixar na perfeição em mim.
Havia no entanto uma que destoava - a de ser “sempre” obediente.
Precisava de entender as coisas e nunca me convenciam as respostas “ não podes, porque não”.
Apesar de ter tido sempre um pezinho de fora, fui crescendo tapada pelo estigma da “boa menina”. Nunca me foi dito que a sombra existia em mim, que nem tudo era perfeito, que existiam rejeições, opiniões e frustrações com as quais teria de lidar e pior que tudo isto, que o mundo SÃO era dos que ousam fazer diferente, serem eles próprios e não dos que se acomodam à vidinha, repetindo o mantra do queixume todos os dias das suas existências.
Algo dentro de mim me puxava para quem EU era realmente e não para quem era suposto ser.
Quando a meio do Inverno a chover a cântaros, a minha mãe se rebeliava comigo por eu querer levar meias até ao joelho para a escola e o meu pai discretamente lhe dizia que se tivesse frio ou molhasse as pernas era um ‘problema-meu’, comecei a perceber que existiam consequências nas minhas escolhas e pude desde cedo saborear o doce sabor de algumas e o muito amargo sabor de outras.    
Considerada “ a rebelde da família” – (titulo que muito me orgulho) J  aos poucos, fui-me desapegando de querer ser PERFEITA e curiosamente ou não) fui-me tornando cada vez mais AUTÊNTICA.
Viver próximo da AUTENTICIDADE e “imperfeita” num mundo de supostos perfeitos não foi tarefa fácil.
Ao longo dos anos, cruzei-me com outros que tal como eu escolhiam ser autênticos, mas também fui desafiada a lidar com “sonsas – criaturas”, que nunca sabemos o que estão a pensar, o que vão dizer, ou o que realmente gostam.
Agradadores (as) por natureza, intimidam-se facilmente com a espontaneidade alheia preferindo sempre serem reconhecidos como “pano-onde-nunca-cai-a-nodoa” aconteça o que acontecer.  
Mas a verdade é que as ‘nódoas’ existem em todos nós. Carl Jung chamava-lhe a nossa sombra. Parte de nós oculta, que ao aceitarmos que existe, faz verdadeiros milagres connosco, pois naturalmente deixamos de nos “pré-ocupar” em sermos perfeitos e passamos a querer ser o mais possível… autênticos.
A autenticidade gera em nós um campo inclusivo, onde os nossos opostos se complementam de forma natural, apontando-nos um caminho interior mais seguro em direcção à nossa essência.
Já refletiu sobre, como seria o mundo se todos fossemos autênticos?
Se todos dissesse-mos o que sentimos, na hora que sentimos?
Se todos procurássemos mais quem somos e menos quem queremos agradar?
Se todos tivéssemos em consciência e a usássemos na relação com nós próprios e com todos os Seres Vivos?   

Se todos reconhecessem que a grande PERFEIÇÃO é a VIDA que SOMOS, essa que torna cada minuto irrepetível, cada SER ÚNICO, ORIGINAL logo…potencialmente AUTÊNTICO! :-)    

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