segunda-feira, 6 de abril de 2015

A CEGUEIRA DA REPETIÇÃO

Cada dia que passa, tenho mais a certeza que a Vida nos dá sempre os sinais necessários para podermos ajustar em nós o que precisa de ser ajustado, colocando (ainda que subtilmente) ao nosso dispor inteligentes formas de ‘trabalharmos’, o que precisa de ser trabalhado.
Foi o que me aconteceu um destes dias ao passar mais uma vez de carro na marginal, estrada que liga Cascais a Lisboa.  
De repente dei por mim a refletir sobre a vontade que sempre tive de viver perto do mar e do privilégio que hoje é isso ser uma realidade.
Reparei no entanto a grande diferença entre aquilo que os meus olhos veem presentemente e aquilo que eles viam quando aqui vinha esporadicamente passear.
Que olhos são os meus afinal, que habituados a ‘tanto-ver-este-mar’, estupidamente hoje parecem ignorá-lo? Questionei.
Estranha cegueira esta que acontece sempre que damos o óbvio como certo e o certo como parte indestrutível e imutável das nossas vidas.
A repetição torna turva a nossa visão, impedindo-nos de ver com clareza o essencial, que apesar de não parecer, é novo todos os dias. Esta “novidade” acontece sempre que aceitamos a irrepetibilidade da Vida e conseguimos ver para além do que olhamos, abrindo um espaço natural de contemplação e descoberta. 
Observemos por exemplo o dia-a-dia de muitos casais.
Rapidamente constatamos, que após algum tempo de vida em comum esta grave cegueira neles se instalou de forma muito óbvia. Tão habituados estão de se verem um ao outro, que se esquecem de se olharem verdadeiramente. 
A repetição parece anular o fogo, e tudo aquilo que em qualquer ‘início’ nos fazia vibrar e nos estimulava, passa depois a ter um lugar demasiado cativo, capaz de paralisar acções e de revelar e ampliar a beleza que cada um tem dentro de si.
Empurra-nos para a ilusão de que, perante um “dado-adquirido” ou uma determinada conquista nada mais “temos-de-fazer” para que a mesma se mantenha viva e de boa-saúde.
E, na verdade “não-temos” J   
É que Viver não se trata de obrigação, mas sim de escolha.
Podemos escolher agir e isso é bem diferente.
Escolher agir, alinhados com as Leis da Natureza (que somos também), ou por outro lado rejeitar ou ignorar essas mesmas leis, rejeitando ou ignorando obviamente a ‘verdadeira-verdade-em-nós’. 
Uma coisa é certa, o resultado que obteremos será sempre inerente à nossa escolha, tal como na nossa horta apenas colhemos o que semeamos.  
Do acto de semear batatas resulta o acto de colher batatas e não beterrabas ou agriões.
Assim sendo, sabemos que, se quisermos ver crescer uma linda e saudável planta, não bastará olhá-la todos os dias sem a ver, nem colocá-la na Terra sem nunca lhe darmos água, verdade? 
E, apesar de todos nós, duma ou de outra forma podermos sofrer desta doença crónica que é a “cegueira da repetição”, curá-la é tão-somente estar consciente dos seus recantos.  
É escolher ver, em vez de só olhar.
É fazer crescer em vez de sabotar.
É, perante as inúmeras repetições da nossa Vida, desistirmos de ser cegos, quando…PODEMOS VER! 

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