quarta-feira, 18 de maio de 2016

~ SOLIDÃO NÃO É SOLITUDE ~

Longínqua, mas ainda presente em mim está a memória de abissal solidão que em tempos vivi. Tempos conturbados, onde a força do vazio sarapintava o meu coração de migalhas de amor e me empurrava os dedos freneticamente para as teclas do telefone, onde de contacto em contacto passava horas em busca de companhia.
Como um naufrago a esbracejar sem tábua de salvação, curiosamente (ou não), quanto maior era o vazio, menor era a disponibilidade daqueles para quem ligava, o que reforçava aquela dolorosa certeza de “não-ter-ninguém” e a minha tão profunda inadequação.
Recordo-me da dor que sentia ao observar o mundo da janela do meu quarto.
Todos pareciam acompanhados, excepto eu.
Recordo também com uma especial nitidez, o som do sino da igreja que a cada meia hora, repenicava dentro de mim, relembrando-me que as horas iam passando, o dia movimentava-se em toda a sua plenitude e eu…continuava só.  
Cada badalada ressoava em mim como se de uma sentença de morte se tratasse - hoje percebo que era uma sentença sim, mas… de Vida.

Afinal, se estava só era porque ainda não sabia estar acompanhada.

Aos poucos, fui caminhando e inevitavelmente o caminho foi-se abrindo.
O véu da ilusão foi caindo e a visão outrora turva começou a revelar-se cada vez mais nítida. Mais atenta ao que dentro de mim acontecia, comecei a perceber que aquela dolorosa sensação, também me acontecia na companhia de algumas pessoas com as quais tinha deixado de sentir identificação. Lembro-me de constatar na altura, que as conversas banais e sem conteúdo, contribuíam tanto para aquela dor de solidão, como o canto da minha casa onde me sentava à espera que o telefone tocasse.

De facto, presença é muito mais que companhia e o que a vida queria era que eu entendesse e integrasse isso, para poder sair da limitada limitação de acreditar que era o outro que eu esperava, para resgatar a companhia que até à data não tinha conseguido encontrar dentro de mim.
Hoje sei, que se havia alguém que eu esperava para sarar aquela imensa ferida de solidão, esse alguém era EU, mais ninguém.
E, assim pulando de ilusão em ilusão, de experiência em experiência, fui abrindo espaço de reencontro comigo mesma.
Outrora amargo, o sabor vazio da solidão, foi-me adocicando aos poucos e tatuando em mim a mágica beleza da solitude. 
Espaço sagrado de silêncio, de mergulho interior, de união com o divino, a solitude ensinou-me que não existem espaços vazios, quando se está em profunda comunhão consigo mesmo e com a natureza que cá dentro habita.
Hoje, procuro menos e encontro mais.
Não vasculho o telemóvel em busca de companhia, pois a presença de quem realmente me acompanha não precisa sequer de nº de telefone como intermediário.
Hoje, por estar cada vez mais comigo deixei de me sentir só.
Escolho qualidade em vez de quantidade e silêncio em vez de ruido.
Os cantos da minha casa deixaram de receber o meu desespero e são agora pontos de acolhimento da paz que me invade, sempre que o imenso prazer da solitude quer estar junto de mim.
Hoje sei.
Estar só não é estar ausente de companhia do outro, mas sim estar ausente da sua própria companhia.
E, eu… há muito que deixei de estar.  

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