UMA CAIXA CHEIA DE ESCURIDÃO

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“Alguém que eu amava, um dia deu-me uma caixa cheia de escuridão.

Levei anos para entender que este também tinha sido um presente.”

Mary Oliver

Na verdade, esta frase pode não ser fácil de escutar, de ler ou de aceitar, principalmente se estivermos a passar por uma separação dolorosa, onde sentimos que, recebemos de alguém que amávamos…uma caixa cheia de escuridão.

Metaforicamente, este é um símbolo que nos remete de imediato para um espaço de sofrimento e de dor. Um espaço onde perdemos a direcção, onde não conseguimos ver nada que não seja aquilo que nos aconteceu e o que, aquilo que nos aconteceu nos está a causar, transformando tantas vezes os nossos dias em noites escuras, aparentemente sem sentido algum.

Perder a confiança, lidar com mentiras, traições podem ser de facto “caixas cheias de escuridão”, que jamais concebemos possam vir até nós para nos presentear.

Porém, a vida sabe o que faz e muitas vezes por precisarmos de aprender determinadas lições recebemos ilusões em forma de presentes, que mais tarde se vêm a revelar envenenados,  outras pensamos que estamos a receber veneno, vindo mais tarde a perceber que afinal eram bênçãos que chegaram até nós para nos cuidar e proteger.

Nas nossas relações somos sempre convidados a profundas aprendizagens.

Como nem tudo o que reluz é ouro, deparamo-nos muitas vezes com alguém que amamos e que não imaginamos que nos possa dececionar, mentir, usar e deitar fora sem pestanejar.

Que presente terá uma pessoa assim para nos dar, para além da caixa de escuridão, onde no fim apenas cabem os anos esvaziados, muitas vezes confusos, onde confiávamos e acreditávamos estar a partilhar amor e verdade com alguém?

Não tendo uma resposta óbvia e transversal a todos nós, uma coisa eu sei, a pergunta que fazemos talvez precise de ser mudada.

Creio que será mais útil para nós, perguntar:

– Que presente eu posso encontrar nesta situação tão dolorosa, nesta caixa de escuridão tão profunda que me diga, que aprendizagens preciso eu de fazer com tudo isto que me aconteceu?

-O que preciso transformar em mim? Que parte de mim não quis ver a verdade ou preferiu ignorar os sinais da mesma?

Hoje anos passados, sei, que precisei de dar tempo e espaço às feridas que resultaram das caixas de escuridão que me foram oferecidas.

Precisei acolhê-las, chorá-las e honrá-las.

Precisei de as tratar com dignidade, de lhes aparar as arestas com carinho e confiança no processo.

Precisei de as ir cicatrizando, percebendo-lhes no toque a pele resiliente de que são feitas.

Não! Já não as ignoro, como outrora fiz.

Quem sabe por isso, com amor,  juntas nos pudemos transformar, transformando aquela escuridão recebida em aprendizagem viva e pulsante.

Sem dúvida, o mais grandioso presente que podia receber, e que agradeço a cada nanossegundo da minha vida!

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